Review: Sharp Objects – Vamos falar sobre aquele final?

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Camille (Amy Adams) é uma jornalista que precisa voltar para a pequena cidade Wind Gap como parte da missão dada por seu editor de desvendar a morte e desaparecimento de duas garotas.

Como toda obra da autora Gillian Flynn, Sharp Objects/Objetos Cortantes nos deixa de boca aberta frente à tamanha violência e obscuridade. Ao mesmo tempo, existe algo que nos faz querer proteger Camille de tudo e de todos. Ela sofre constantemente e veste sua dor como ninguém.

Em apenas oito episódios, fica claro que o objeto principal da série é a família de Camille e sua relação com eles. Por mais que tenha um mistério rondando a cidade e suspeitos bem fracos para os crimes, os sentimentos e ações de Camille falam mais alto – o que torna a série algo bem diferente de um mistério policial.

Afinal de contas, Camille está tentando lidar com sua automutilação e seus vícios, e isso atrapalha suas investigações. Foi muito bom ver esses assuntos sendo tratados e entendermos a dor de Camille em meio ao ambiente que cresceu. Adora (Patricia Clarkson), claro, nunca chegou perto de ser a mãe do ano.

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Todos os detalhes da série se unem de maneira incrível. As relações de Camille com as “irmãs” de sua vida, que incluo aqui Alice por isso as aspas, nos mostram o quanto Camille sempre lutou entre ser uma “boa garota” e uma rebelde. Entre a sedução macabra de sua mãe e a liberdade.

Enquanto Marian foi a mais passiva, Alice (a amiga de Camille na reabilitação) poderia ser a versão mais extrema de tudo. Já Amma parecia ser mais como Camille, com seu lado rebelde, mas sua vontade de agradar parecia prevalecer mais. É quase como se Amma fosse rebelde para ser cuidada, ao contrário de Camille, que queria se distanciar mesmo.

Já era de se esperar que o foco mais intimista da série não era por acaso. Todos os problemas da cidade, o desaparecimento de Ann e Natalie, eram um reflexo da família de Camille.

*Se segura que a partir de agora tem spoilers para valer*

Cada uma delas mostra lados e conflitos de Camille, mas principalmente o quanto Adora reflete nas filhas. Eu diria que a própria avó das garotas refletiu em tudo isso. É quase um ciclo sem fim de violência, que parece apropriado ao final. Enquanto Adora se adequa ao Síndrome de Münchhausen por procuração, Camille converge essa violência para si mesma e Amma… Bom, Amma a externaliza da maneira mais cruel.

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O episódio final me deixou desnorteada. Ver Camille confirmando suas suspeitas da maneira mais avassaladora, a coração de flores sinistra de Amma, Curry (Miguel Sandoval) e Richard (Chris Messina) finalmente seguindo as pistas… Alívios seguidos de sofrimento.

Fiquei me perguntando qual era o papel de Richard na vida de Camille e acho que, no fundo, foi ele que a mostrou o caminho da verdade. Camille estava tão envolvida nos problemas que nunca pensou em investigar a mãe. Ele era seu cúmplice como alguém de fora de Wind Gap e não necessariamente um par romântico.

Mas, voltando ao final, o mais impactante é que ficamos tão fissurados na doença de Adora que não paramos para pensar na influência que isso teve em Amma. Sua dualidade sempre esteve presente e finalmente se revela por completo nas cenas finais.

Ao mesmo tempo que Adora tinha uma obsessão pelas filhas, Amma recria essa mesma obsessão. Ela quer a mãe só para si. Poderíamos dizer que sua fala sobre como controla os garotos se aplica ao caso. Eles acham que estão fazendo com você, mas você que tem o controle, lembram? De certa forma, ela usava Adora para encobrir seus crimes e suas “ideias esquisitas”.

Cena pós-créditos: sim, ela existe!

A relação que Adora começa a criar com Natalie e Ann parece ser o estopim para a morte das duas, e acredito que até explique a raiva quando os dentes foram arrancados de seus corpos. Amma tinha ciúmes. 

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A cena pós-créditos (e outra meia cena no finalzinho) me passou despercebida, mas quando li sobre ela tive que correr para ver. E é bem tensa. Ela mostra Amma cometendo cada um dos seus crimes com a adição do mais novo: Mae.

A amiguinha que Amma faz em sua nova vida com Camille só confirma as obsessões da garota. O jantar da noite anterior na casa de Curry nos mostra que o motivo do instinto assassino ter reacordado: Amma sente que Mae está puxando o saco de sua irmã. Ou seja, Mae é uma competição pela atenção de Camille e Amma não poderia deixar isso acontecer – assim como não deixou acontecer com Natalie e Ann.

A conversa na mesa do jantar, a pele marcada de Mae, o “Eu poderia comer você” de Amma, o retrato de Marian e Camille caindo da parede, a música usada na revelação sobre Amma, a casa de bonecas… É por esses e muitos outros detalhes em cada cena e episódio que Sharp Objects é tão brilhante.

“Um bêbado pode estar dirigindo rápido demais, ele vai bater em vocês antes de vê-las.” “Ou ela. Não seja sexista, xerife.”

Não é à toa que as amigas de Amma corrigem o xerife ao falar que perigo nas ruas pode ser uma mulher. Não é à toa que elas andam tão despreocupadas por aí com seus patins. Elas ajudaram Amma.

É claro que nem sempre pegamos todos os detalhes, muitos são bem sutis, outros são digeridos aos poucos. No entanto, mesmo sem perceber, eles influenciam o ambiente criado pela série.

Não preciso nem falar que as atuações de Amy Adams, Eliza Scanlen e Patricia Clarkson foram formidáveis. Sempre fico surpresa em ver atores tão jovens como a atriz que faz Amma se saírem tão bem (e olha que foi o primeiro trabalho dela no ramo!).

*Fica a dica: encontrei esse vídeo da HBO sobre o finale em inglês: link

Parte de um final feliz

Levantando um pouco o astral, precisamos falar sobre Curry e sua relação com Camille. Eu simplesmente me apaixonei por essa relação fraternal, que, de quebra, vem com Eileen como uma figura materna para Camille.

Fica bastante claro que Camille conseguiu construir um lar com eles. E, eu diria, que isso a salvou. Ela se tornou a “maçã boa” da “árvore ruim”, focando em sua bondade. (Aliás, que texto incrível da Camille sobre a percepção de gênero, hein!).

Todo o sofrimento ainda estava ali, mas Curry foi quem estava ao seu lado para ajudá-la a enfrentar seu passado. Claro, ele não esperava tamanhas descobertas, mas, apesar de tudo, Camille parece realmente feliz no final. Parece uma pessoa mais leve.

Dá para reparar que o apartamento de Camille mudou, as cores e luzes na das cenas estão mais claras, Camille não tem mais flashbacks ou bebe. Ela está finalmente bem e ganhou a oportunidade de ter uma irmã… Só não dura muito.

O que me deixa mais triste com a descoberta sobre Amma é exatamente isso. Quando Camille espera finalmente ter superado todas as crueldades do passado, o resquício mais impactante volta à tona.

Só podemos esperar que Camille continue a receber o apoio de Curry a mais um choque. Só espero que ela fique bem. Uma coisa é certa: acho que não é à toa que “Amma” é um anagrama para “mama”.

 

Fontes, aka artigos que me ajudaram a superar esse final e escrever sobre ele: CNet.comNYTimes.comVulture.com; VanityFair.com (fala sobre o livro também).

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